Biblioteca de bairro em Belo Horizonte reúne vizinhos e reduz evasão escolar no Barreiro

Ilustração de biblioteca comunitária

Numa sala de quarenta metros quadrados ao lado da sede da Associação de Moradores do Tirol, no Barreiro, estantes de madeira reaproveitada abrigam cerca de mil e duzentos livros. O espaço funciona de terça a sábado, das 14h às 19h, e já emprestou mais de duzentos títulos só no mês passado. O nome escolhido pelos vizinhos é simples: Biblioteca do Tirol.

O projeto começou em agosto de 2025, quando a professora aposentada Helena Morais reuniu cinco famílias para discutir o que fazer com livros acumulados em caixas após uma campanha de doação na escola municipal do bairro. "Faltava lugar para guardar, mas sobrava vontade de ler", ela conta. A associação cedeu a sala — antes usada como depósito — e voluntários pintaram as paredes em um fim de semana.

Como funciona no dia a dia

O acervo cresceu com doações de vizinhos, de uma livraria de seminovos da região e de um projeto universitário de Belo Horizonte que descarta exemplares de biblioteca. Há ficção, infantojuvenil, quadrinhos e uma seção de não ficção com livros de história, ciências e biografias. O empréstimo é gratuito: basta cadastro com nome, telefone e endereço no bairro.

Nas tardes de quinta e sexta, duas professoras voluntárias — Helena e a jovem estudante de pedagogia Camila — recebem crianças do ensino fundamental para apoio na lição de casa. "Muitas mães trabalham até tarde. As crianças vinham para a praça sem supervisão; agora têm mesa, luz e alguém para tirar dúvida", diz Camila.

Impacto na escola

A diretora da Escola Municipal Professor João da Silva, unidade mais próxima, notou mudança no rendimento de alunos que passaram a frequentar a biblioteca. Segundo dados internos compartilhados com a redação (e que não substituem avaliação oficial), o índice de entrega de tarefas entre alunos do quarto e quinto ano subiu de 61% para 78% entre setembro de 2025 e maio de 2026.

"Não é milagre, é consistência", pondera a diretora. Ela ressalta que o apoio voluntário complementa — mas não substitui — políticas públicas. A biblioteca municipal mais próxima fica a quatro quilômetros, e o horário de funcionamento não atende famílias que retornam do trabalho após as 18h.

Desafios e sustentabilidade

O projeto vive de doações e de um baú comunitário na porta da associação, onde moradores deixam mantimentos e materiais escolares. Contas de luz e internet são divididas entre dez famílias que assumiram compromisso mensal simbólico. Ainda assim, a troca de lâmpadas e a compra de uma impressora para fichas de empréstimo geraram debate sobre como captar recursos sem perder a independência.

Em abril, a biblioteca recebeu visita de técnicos da Secretaria de Educação, que avaliaram a possibilidade de parceria formal. Até o momento, não há convênio assinado, mas a secretaria informou que estuda incluir o espaço em programa de reforço escolar noturno previsto para o segundo semestre.

Replicação em outros bairros

O modelo chamou atenção de associações em Contagem e em bairros da zona norte de Belo Horizonte. Helena e Camila participaram de uma roda de conversa em maio para explicar o passo a passo: cadastro de voluntários, acordo com associação, sistema simples de empréstimo em caderno — depois migrado para planilha compartilhada.

"Não precisa de muito dinheiro. Precisa de gente que apareça", resume Helena. A Bravita continuará acompanhando a Biblioteca do Tirol e projetos semelhantes. Se você conhece uma iniciativa de bairro que merece reportagem, envie para [email protected].